Segunda-feira, Maio 11, 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LXII - Evanice


O chão da rua tremulava lá fora e ela, com as crianças pelas mãos, se instalou debaixo do ventilador de teto da lanchonete colorida da Praça da Bandeira.
As fez sentar nos banquinhos e lhe brotou no rosto, mais acabado do que deveria, um sorriso de graça por ver os pezinhos deles balançando, como se estivessem na borda de uma piscina.
O calor carioca era tanto que chegara a esquentar-lhe a bolsinha de moedas, que sentia leve como um passarinho na sua mão.
Encostou a barriga no balcão e começou a flexionar sua aritmética, enquanto olhava o mostrador com os preços e os produtos. Jogou os centavos de um lado para o outro até conseguir num resultado satisfatório dentro de todas as possibilidades disponíveis.
Colocou as moedas mornas na mão do atendente e levou o lanche até as crianças. Um joelho para cada e um copo de refresco de caju e outro de maracujá. Afinal, não é porque eram irmãos que teriam os mesmos gostos, sabia disso.
Ficou ali observando os dois se deliciarem enquanto amansava sua própria fome com a satisfação deles.


Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LXI - Stephanie


O andar vacilante não era de desespero, era por causa do salto alto nas pedras portuguesas da calçada.
E as mãos tremento não eram de nervoso, era porque tinha feito esforço a tarde toda na academia.
O suor frio era por causa do calor que fazia, e os olhos lacrimejantes era por causa das lentes novas.
A respiração ofegante era por causa da asma que voltava, o olho roxo era da maquiagem que escorria, o cabelo desgrenhado era a pressa, os dentes bambos da frente era o tratamento ortodôntico.
Eles não brigaram de novo, ele só está passando por uma fase ruim.
Sua mãe entenderia.


Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LX - Ricardo


Fez as contas e viu que se pagar tudo ainda ia faltar pra faculdade.
De vez em quando pensava que ter saído da casa dos pais não tinha sido uma boa idéia, principalmente quando tinha que vender o almoço pra poder pagar a janta.
Mas, por outro lado, ficar ouvindo os remungos do pai, as lamentações da mãe sobre sua saúde, as brigas constantes da irmã com o marido, que vivem no andar de cima da casa dos seus pais, e as constantes incursões de suas sobrinhas pela casa a dentro, não é nada animador.
No final, se viu forçado a sair, porque ou era isso ou ter que agüentar todo este pesadelo, diariamente.
Só que lá no fundo, quando o cinto aperta, ele se imagina comendo aquele ensopadinho de batata com músculo, aquele feijãozinho temperado na hora, e todas aquelas coisas gostosas que só a mãe dele sabe fazer, e a dor aumenta, e a solidão, e o triste que é ficar às próprias custas.
Um dia ele vai entender que deu o passo na direção certa, mas enquanto ainda sentir a sombra da proteção familiar sobre si, estará sempre se arrependendo, pensando duas vezes.


Terça-feira, Junho 24, 2008

VIDAS DESPERCEBIDAS LVX - Marcus


Assim que o relógio marcou quinze para as dez ele deixou o local do encontro com aquela sensação horrorosa de frustração e fracasso. No fundo achou que desta vez ia dar certo, que tudo funcionaria.
Durante o tempo de espera é normal que nós pensemos todas as possíveis adversidades que impediriam a pessoa aguardada chegar, mas ele já havia passado deste ponto e não parava de pensar que não era mais interessante pra ninguém e que definitivamente esta não seria a última a tratá-lo assim.
No ônibus, a caminho de casa, puxou a cordinha muito antes do seu ponto, porque queria tomar o ar fresco da noite, tirar de dentro do peito aquele calor que incomoda.


Sexta-feira, Abril 18, 2008

VIDAS DESPERCEBIDAS LVIX - Dalvara


Ele ficou para dormir na sua casa porque já não havia condução.
Ela deixou sua cama para ele e lhe emprestou uma camiseta, para que não amassasse a que ele usaria no dia seguinte no trabalho.
Enquanto ele tirava a camisa, com toda aquela naturalidade, ela entrou no quarto e em breves instantes o observou de uma maneira que não tinha observado antes. Suas costas, o seu pescoço, a maneira como se movimentava.
Achou que ali se dera conta de que em seu coração ele era mais do que seu amigo.


Segunda-feira, Abril 07, 2008

VIDAS DESPERCEBIDAS LVIII - Bernardo


A mãe até estranhou quando não precisou mais chamá-lo um milhão de vezes para tomar café antes de ir pra escola.
Mal acordava e já estava uniformizado, com a boca cheia de pão com manteiga e café com leite, correndo pra porta.
Deixou de faltar aula, passou a fazer os deveres de casa assim que chegava e a andar mais arrumadinho - porque antes vivia maltrapilho, sujo de lama e todo arranhado dos muros de chapisco da vida.
Mudou completamente depois que passou a escrever o nome daquela mulatinha nos cadernos.


Sexta-feira, Abril 04, 2008

VIDAS DESPERCEBIDAS LVII - Márcio


Apesar de despertar pela manhã gozando de boa saúde, faleceu por causas desconhecidas, exatamente às 14 horas e 26 minutos em um ônibus, indo para a casa da namorada.
Embora ninguém viesse a saber, no exato momento em que sua vista turvou-se e engoliu em seco sua última tragada de ar, em seu walkman estava tocando sua música preferida, a última daquele lado da fita.
Se alguém soubesse disso diria que foi um sinal, mas foi só uma grande coincidência feliz.